Nova frente de batalha contra a Covid-19

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Reportagem acompanhou primeiras internações da Unidade Intermediária de Cuidados Intensivos de Panambi e entrevistou responsáveis por viabilizar leitos

O silêncio nos corredores do Hospital de Panambi é interrompido pelo barulho das rodas da maca. É como se um tanque de guerra se aproximasse do campo de batalha, anunciando o início de mais uma combate.

Para o leitor, a comparação pode parecer exagerada. Mas não para a equipe da casa de saúde. “Estamos em uma guerra. Aqui é o campo de batalha contra a pandemia”, fala um dos médicos.

A maca carrega uma paciente da Ala Covid para o novo front (ou frente de batalha) no hospital, a Unidade Intermediária de Cuidados Intensivos.

Instalada no Centro Obstétrico, o espaço, até então voltado para o nascimento, agora é a última linha de defesa antes da transferência de pacientes em estado grave para uma Unidade de Tratamento Intensivo. Todos os pacientes que entram lá permanecem em busca de leito em UTI.

Para quem não está acostumado a acompanhar a rotina hospitalar, assistir ao transporte é angustiante: cada respiro é motivo de sofrimento. O tempo anda mais devagar e o lamento da paciente ecoa no corredor até finalmente entrar na unidade e as portas fecharem.

“Esta é a realidade. É uma situação desumana”, afirma o doutor Juliano Loblein, responsável por coordenar, dentro da casa de saúde, a criação da unidade semi intensiva no Hospital de Panambi. “É desesperador ver um paciente com falta de ar, aquela angústia por não estar conseguindo respirar de forma adequada.”

Prontos para a guerra: Juliano Loblein e Airton Getelina assumem
o primeiro turno de trabalho na UTI

Ele e o anestesista Airton Getelina se paramentam como se fossem soldados e marcham para o primeiro plantão na unidade. Outro paciente entraria quase uma hora depois. Até quinta-feira (18), 24 horas após o início das atividades, o número subiria para três.

A iniciativa de surgiu diante do agravamento dos pacientes e da falta de leitos de UTI disponíveis em todo o Rio Grande do Sul devido ao colapso em todo o sistema de saúde.

“Nós precisávamos dar uma assistência melhor aos pacientes e não tínhamos esta estrutura ainda montada”, relaxa. Este trabalho contou com o envolvimento de profissionais de diversos setores do hospital e também da prefeitura de Panambi.

A situação dos pacientes deixa o médico sensibilizado. Meses atrás, Juliano foi diagnosticado com Covid-19 e precisou ser transferido para uma unidade de tratamento intensivo. Lá, esteve na mesma situação que muitos dos seus pacientes. “Eu tenho uma empatia bastante grande por eles porque eu passei por isso. Estive internado na UTI com risco de vida e o atendimento que me deram foi fundamental para poder estar aqui ajudando pessoas.”

Soma de esforços

Abertura da unidade contou com esforços da equipe do hospital e da prefeitura

A mobilização iniciou três dias antes da unidade começar a funcionar nesta quarta-feira (17). “Realizamos uma reunião entre o corpo médico no domingo [dia 15] e uma reunião com a prefeitura na segunda-feira (16) e prontamente eles aceitaram”, relata Loblein.

O Secretário Municipal de Saúde, Romário Heitor Malheiros, ficou responsável pela parte burocrática para habilitar os leitos da unidade em caráter excepcional e temporário.

“Confesso que estou com um frio na barriga por todas as decisões que a gente tem que tomar de forma rápida. São vidas que estão aguardando, são vidas que estão em jogo. Mas estou feliz porque na reunião com os médicos senti a intenção de somar esforços”, desabafou.

Inicialmente, os recursos para a manutenção do espaço ficará sob responsabilidade da prefeitura municipal, que também vai ceder médicos. “Deixamos bem claro para a Sociedade Hospital Panambi que o município, enquanto perdurar a necessidade de ter leitos de UTI no hospital, vamos participar com a transferência e pagamento dos médicos para termos plantão 24 horas de profissionais”, afirmou.

Em entrevista à SB Comunicações, Romário afirma que vai buscar apoio junto à comunidade e aos empresários para garantir que não faltem equipamentos e insumos na unidade.

Na tarde de quarta-feira (17), o prefeito Daniel Hinnah esteve junto com o secretário na Unidade Intermediária de Cuidados Intensivos. “É um momento para buscarmos salvar vidas”, afirmou. “É uma novidade e algo marcante na história de Panambi, apesar de ser um momento tão crítico e ser uma exigência do momento. Panambi tem um excelente hospital com condições, mas o grande desafio eram os profissionais. E mesmo não tendo profissionais com formação de intensivistas, nós temos médicos que se disponibilizaram e tem um experiência em UTI.”

“Ainda não vimos a luz”

Desespero: médicos Luís Ernesto Viquez Vargas e Juliano Loblein
relatam como é trabalhar na Ala Covid-19

Para a equipe médica da Ala Covid-19 do Hospital de Panambi, a Unidade Intermediária de Cuidados Intensivos tornou-se a mais nova arma para ajudar a dar um tratamento mais digno aos pacientes em estado grave que precisam de transferência para uma UTI.

“É uma coisa muito ruim”, desabafa o médico Luís Ernesto Viquez Vargas, “porque esses pacientes que esperam leito de UTI estão com fome de ar, com muita falta de ar. Então a gente vê aquela angústia no paciente e na equipe. Os cinco panambienses que estão na lista de espera estão há dois ou três dias e por enquanto não há nem previsão de abrir leito para nenhum deles.”

Sem poder ter como ajudar os internados, os médicos acabam sofrendo muita pressão dos familiares. “As pessoas pedem para encaminhar um parente para fora. Mas encaminha para onde? Para qual leito? As pessoas tem que entender que os leitos de UTI não existem no momento e por enquanto a gente não vislumbra uma mudança nesse cenário.”

A equipe da Ala Covid vê com preocupação a mudança de perfil dos pacientes diagnosticados com coronavírus, que dão entrada no Hospital de Panambi com quadro cada vez mais grave e mais tempo para se recuperarem. Além disso, a maioria dos pacientes possuem de 30 a 40 anos e não apresentam comorbidade.

“Hoje, a maior parte dos pacientes não é mais idosa. E temos pessoas internadas com quadros muito grave sem qualquer tipo de doença prévia”, alerta Vargas.

Com o agravo da situação, o número de óbitos tem aumentado nas últimas semanas. Em menos de sete dias, mais de cinco pacientes faleceram na casa de saúde.

“É uma coisa muito difícil dar uma notícia de falecimento para um familiar. É muito triste. E você dar a notícia que seu familiar faleceu a espera de um leito de UTI é mais difícil ainda, porque você sabe que talvez aquela pessoa em quadro grave poderia ter tido uma chance”, relata o doutor, com a voz embargada.

Diante deste cenário, o médico reforça que as precisas precisam seguir os protocolos de higiene e distância para ajudar a diminuir a taxa de contaminação e, consequentemente, de internações e óbitos. “Estamos longe de ver uma melhora, ainda não vimos uma luz. Ainda estamos lidando com uma falta de medicamentos não só em Panambi, mas em todo o Rio Grande do Sul e Brasil. Nós ainda vivemos um momento muito preocupante.”