Pesquisadores alertam para ocorrências de meteotsunamis no RS e em SC; entenda o que é o fenômeno

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Ainda considerado incomum, evento poderá ocorrer com mais frequência por conta das mudanças climáticas

Cientistas do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina estão pesquisando com mais intensidade os meteotsunamis, ou tsunamis meteorológicos, fenômenos que ocorrem no oceano e eram considerados incomuns, mas que passaram a ser registrados com alguma frequência nos litorais gaúcho e catarinense nas últimas décadas, causando estragos na região costeira. O meteotsunami é uma onda com característica similar ao tsunami comum, aquele induzido por atividade sísmica. A diferença é que ela é originada por fenômenos atmosféricos, causados pela variação da pressão atmosférica, associada à passagem de uma linha de instabilidade sobre a região costeira. 

COMO SE FORMA UM METEOTSUNAMI OU TSUNAMI METEOROLÓGICO

Especialista em ondas explica o fenômeno:

As linhas de instabilidade no Sul do Brasil deslocam-se normalmente, numa direção paralela à costa, sempre sobre a plataforma continental (trecho raso que margeia os continentes, indo da linha da costa até uma distância da ordem de 100 quilômetros mar adentro),

A linha de instabilidade tem um pulso de pressão atmosférica associado a ela e, enquanto se propaga, esse pulso móvel de pressão “perturba” as águas da plataforma continental.

As águas da plataforma, por sua vez, têm “modos de vibração” (longas ondas) próprios, os quais, por coincidência, têm velocidade de propagação muito próximas da velocidade de avanço da linha de instabilidade, possibilitando, portanto, uma ressonância quase perfeita entre a atmosfera e o oceano.

Assim, a onda que se formará terá sua altura amplificada, terá um período da ordem de minutos e viajará praticamente na mesma velocidade de avanço da linha de instabilidade, que pode chegar a cerca de 40 km/h.

Ao se propagar até a costa, a onda pode ser ainda mais amplificada, atingindo alguns metros de altura ao chegar à praia. O perigo não está apenas na altura, mas também no período da onda, que pode chegar a muitos minutos. Ondas com períodos dessa ordem assemelham-se a uma subida rápida da maré, podendo provocar inundação da zona costeira.

O alcance da inundação dependerá da inclinação da praia e da presença ou não de dunas. Em praias quase planas, como a do Cassino e outras do litoral gaúcho, a inundação pode alcançar algumas centenas de metros na orla costeira.

Pesquisadores ligados à Universidade Federal do Rio Grande (Furg) e da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) começaram a estudar o fenômeno no início dos anos 2000, debruçando-se sobre um fato ocorrido em março de 1977, quando teria sido registrado pela primeira vez na imprensa um meteotsunami no balneário Cassino. Na época, moradores relataram a chegada de um “misterioso vagalhão” que cobriu toda a praia, passando por cima de 14 carros e derrubando um trailer. Uma mulher que estava sobre o molhe da Barra de Rio Grande se assustou, tentou correr e caiu, morrendo ao bater com a cabeça nas pedras. A água chegou às dunas, distantes 200 metros da praia. Tudo teria ocorrido em menos de dez minutos, após o tempo escurecer e o vento mudar de direção. 

Juntos, os professores Lauro Calliari, Ph.D. em morfodinâmica costeira, e Eloi Melo, Ph.D. em Ciências Oceânicas Aplicadas e especialista em dinâmica costeira, assinaram o primeiro artigo sobre o fenômeno, em 2004, depois de um levantamento com base em relatos da época e associações a outros eventos ocorridos em diferentes partes do mundo. 

— Dunas de até cinco metros foram escarpadas por esta onda, que chamaram de “vagalhão do Cassino”. Pelos relatos da época, fala-se que nesse dia o tempo tornou-se subitamente instável, com nuvens escuras e rajadas de vento, caraterísticas de uma linha de instabilidade. Começamos a buscar referências, inclusive na Europa, onde o tema já era discutido. Eloi associou o fenômeno a ondas oceânicas que entrariam em ressonância com outras ondas atmosféricas e seriam amplificadas perto da costa, inclusive por ação da presença dos molhes de Rio Grande. Foi a primeira conjectura sobre o fenômeno no Estado e no Brasil. Mais tarde, começaram a aparecer outros registros, todos eles com as mesmas condições climáticas — relata Calliari. 

Entre 2009 e 2021, pelo menos, sete eventos foram registrados nos litorais Sul e Médio do Rio Grande do Sul e no litoral de Santa Catarina: Pântano do Sul (SC), em 2009; Cassino (RS), em 2014; trecho Araranguá – Rincão (SC), em 2016; Tavares e Mostardas (RS), em 2018; trecho Rincão – Camboriú (SC); em 2019; e, novamente, no Cassino (RS), em 2020 e 2021. Em praticamente todos, houve estragos em veículos que estavam sobre a areia e em habitações vizinhas à praia. 

Segundo o professor da Furg Ulisses Oliveira, especialista em dinâmica de praias, nos  balneários gaúchos e catarinenses onde foram registrados os meteotsunamis, com base em relatos, vídeos ou fotografias, o efeito tende a ser maior em praias voltadas para o quadrante sul que apresentam baixa declividade e areias finas, possibilitando um avanço de muito metros do meteotsunami sobre a faixa de praia. Em praticamente todas estas praias voltadas ao quadrante sul onde o fenômeno foi registrado, houve estragos em veículos que estavam sobre a areia, habitações vizinhas à praia ou em pequenas embarcações, como em Pântano do Sul, em Santa Catarina. Apesar de o fenômeno ainda não ter sido identificado no Litoral Norte gaúcho, Ulisses não descarta esta possibilidade. Inclusive, relata, já podem ter até ocorrido.

Calliari acrescenta que por ainda ser imprevisível e rápido, o fenômeno precisa ser ainda mais estudado, inclusive, para garantir a segurança os banhistas. 

— Imagine milhares de pessoas na praia, crianças, carros e idosos. Teríamos que ter rota de escape, uma saída rápida da praia — aponta. 

Conforme Melo, no meteotsunami, as ondas, mesmo não chegando a atingir grande altura, podem causar dano e oferecer risco devido ao fato de possuírem períodos longos (da ordem de minutos), conferindo à onda um grande potencial de inundação das regiões costeiras.

— A questão dos meteotsunamis não é tanto a altura das ondas, mas o seu período (intervalo de tempo entre cristas), que fica na faixa de minutos. Ondas com períodos de minutos não vão quebrar na costa como ondas “normais” (que têm períodos na faixa de segundos), mas vão se manifestar como uma variação de nível que vai subir durante vários minutos e que pode causar uma inundação repentina da região costeira provocando muitos problemas — ressalta.

Um dos meteotsunamis em estudo formou uma onda que percorreu 40 quilômetros de extensão de costa, afetando as praias do Farol, em Tavares, e Balneário Mostardense e São Simão, em Mostardas, por volta das 3h da madrugada de 23 de setembro de 2018. A força da onda entortou postes, derrubou casas de madeira e de alvenaria próximas à faixa de areia e deixou outras parcialmente destruídas. Onde não havia dunas frontais, a água cruzou vias e sangradouros e acabou invadindo a área de moradias, distante cerca de 200 metros da praia. Não houve vítimas por ser período fora de veraneio. 

Rodrigo Simões, orientando do professor Calliari no Doutorado em Oceanologia na Furg, e o meteorologista Murilo Fretta, da Defesa Civil de Santa Catarina, conjuntamente com outros pesquisadores, estão à frente de um levantamento mais aprofundado sobre o fenômeno que atingiu o Litoral Médio em 2018.  

— Com base nos dados de drone obtidos em campo apenas três dias após o evento, é possível ver as marcas do avanço da onda em direção ao interior dos balneários. Dados de radar e do satélite GOES da época apresentaram uma linha de instabilidade deslocando-se paralelamente à linha de costa do Rio Grande do Sul — explica Simões.   

Fretta destaca que, na data, havia um sistema de baixa pressão, ventos entrando no Rio Grande do Sul pelo oeste, e condição de passagem de uma frente fria (sistema chuvoso), desenvolvendo uma linha de instabilidade, com núcleos de tempestades severas associadas à formação de tornados, microexplosões e frentes de rajadas. 

— Quando ocorrem estes sistemas, há uma liberação de energia das nuvens de tempestades para o oceano, mudando a pressão atmosférica sobre a superfície do mar, potencializando o fluxo de ondas costeiras — complementa Fretta. 

Como coordenador da equipe de meteorologia da Defesa Civil de Santa Catarina, Fretta trabalha com níveis de observação, atenção e alerta. O estudo sobre meteotsunamis no Rio Grande do Sul e Santa Catarina que está sendo desenvolvido por ele e Simões servirá para criar limiares de previsão específicos para ocorrências deste tipo, facilitando o monitoramento operacional da costa. 

— Nossa intenção é, em breve, também contatar a Defesa Civil gaúcha para criarmos estes limiares (sistemas de alerta) em conjunto, pois são eventos que podem ser previstos. São raros, mas a partir do momento em que temos mudanças climatológicas importantes, estas condições podem potencializar eventos deste tipo e eles tendem a se tornar mais frequentes e mais intensos — afirma Fretta. 

Para os pesquisadores, a ocupação costeira deve ser pensada de forma a respeitar a dinâmica natural de cada local. Simões destaca que a costa do Rio Grande do Sul é aberta, exposta a uma alta energia de ondas e extremamente dinâmica, com ação eólica e marinha que podem alterar rapidamente um perfil praial. 

— Devemos começar a considerar eventos meteorológicos extremos como os meteotsunamis, em uma costa exposta onde os efeitos das mudanças climáticas podem, muito provavelmente, intensificá-los. Considerando isto, a ocupação no Rio Grande do Sul deveria respeitar linhas de não urbanização condizentes com a alta dinâmica local. Não ocupando ou degradando sistemas de dunas costeiras, que conferem naturalmente uma maior proteção à ocupação, pois são barreiras naturais a eventos extremos como os meteotsunamis — finaliza, destacando que é necessário aprofundar ainda mais os estudos deste tipo de fenômeno. 

Fonte: GZH