Relatos da linha de frente

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Profissionais da saúde e pacientes da Ala Covid do Hospital de Panambi narram batalha contra a pandemia

Existe uma linha no Hospital de Panambi que ninguém quer cruzar. Ela é demarcada por fitas zebradas enroladas em cones que carregam duas placas com os seguintes dizeres:

Ala Covid

Área de Isolamento

Não ultrapasse

Há dois tipos de pessoas que cruzam esta linha: pacientes diagnosticados com Covid-19 que lutam para sobreviver e os profissionais da saúde que batalham para salvar vidas.

Esta é a linha de frente de combate ao coronavírus em Panambi, formada pela enfermaria e pela Unidade de Tratamento Intensivo. A expressão, que ganhou notoriedade na Primeira Guerra Mundial, virou um termo popular para definir o local formado por quem está em contato direto com o vírus. 

“Realmente acho que é uma guerra”, afirma médico Luís Ernesto.

“Eu nunca estive em uma guerra, mas para mim é igual a uma”, relata o médico Luís Ernesto Viquez Vargas, que atua no combate à pandemia não só em Panambi, mas também em Condor.

“É muito ruim, porque a gente lida com uma quantidade de pacientes enorme. Quando você tenta dar alta para um paciente, chega outro ruim. Então realmente acho que é uma guerra. Não com a intensidade das grandes guerras, mas uma mini guerra neste hospital.”

A convite do médico, a equipe da SB Comunicações ultrapassou a linha na manhã do dia 16 de junho para registrar a rotina de quem está na guerra contra a pandemia.

Preparativos para a guerra

Era por volta das sete horas da manhã quando os médicos Luís Ernesto e Fernanda Dessbesell chegaram ao campo de batalha, a enfermaria da Ala Covid. 

A paramentação é o primeiro passo antes de iniciar mais um dia de combate. Vestí-la é como ostentar um uniforme de soldado. 

Médicos vão de quarto em quarto para verificar os pacientes.

Depois de conversar com a equipe de técnicas de enfermagem e enfermeiras, a dupla se reveza e começa a entrar nos quartos para acordar os pacientes e conversar com eles.

Em guerras como estamos acostumados a ver em filmes, trombetas, discursos, canções, gritos, tiros ou bombas antecipam o início do conflito. Na Ala Covid, os sons são de tosses, respirações ofegantes e intermináveis monitores de sinais vitais dos pacientes.

Os barulhos perturbam quem está lá pela primeira vez, apenas de passagem, mas são ainda mais apavorantes para quem está há dias acamado na unidade.

Bom dia: pacientes são acordados pela equipe de saúde

A gente percebe que os pacientes ficam muito assustados. Imagina você ter dia e noite barulho de aparelhos, entrando e saindo gente no quarto, oxigênio. Quando os pacientes apresentam piora, eles têm que ser levados às pressas para uma outra sala e serem atendidos. As pessoas nunca passaram por isso e não entendem o que está acontecendo. O fato de vir para cá por Covid-19 é uma coisa assustadora. E quando as pessoas se deparam com a realidade, de que muitos pacientes pioram, para quem está internado ao lado é bem complicado. É uma doença que assusta muito”, relata o médico Luís Ernesto.

Mas não são apenas os pacientes que ficam assustados. Diferente de um conflito armado, os combatentes da pandemia não enxergam o inimigo, e nem o seu ataque. A possibilidade de contaminar-se é alta, mesmo com todos os cuidados tomados pela equipe. E o medo aumenta ainda com a possibilidade de passar a doença para outras pessoas.

A gente tem muito medo de chegar a passar [para a família]. Eu particularmente já peguei Covid-19. A gente fica muito ruim mesmo. A gente tem filho pequeno, tem outra vida lá fora, então tem medo de sair daqui e passar para os nossos filhos e pais. É uma rotina bem preocupante, que a gente sai daqui e nunca sabe, podemos ser transmissor para várias pessoas”, desabafa a enfermeira Jankieli Schu Papke. 

Em cada cama, uma história diferente: alguns pacientes apresentaram melhora, outros pioram. Um afirma que um sintoma passou e outro surgiu. Dependendo da informação, os médicos ficam satisfeitos ou preocupados, o que fica expresso em seus rostos mesmo com as máscaras cobrindo parte da face.

O trabalho vai além. “A nossa rotina é bem extenuante”, relata a médica Fernanda.

A gente chega cedo, vê como passaram a noite, pedimos exames de laboratório, examinamos cada um. Cada um tem a sua queixa, um não consegue dormir, outro está com mais tosse, outro com diarréia. Casos mais graves, casos mais leves. Depois daqui a gente tem que conversar com a família, que não tem contato com o paciente e fica angustiada, para falar das condutas que a gente vai tomar, se vai trocar medicação e como o paciente passou.”

O vírus continua aí. A gente tem dias piores e dias melhores. Agora estamos passando por uns dias que tem dado um pico. Não foi tanto quanto março, graças a Deus, mas dá duas semanas de calmaria e começa tudo de novo.

Sobreviventes

Em um dos quartos da enfermaria, Régis Fiorio (47 anos), Rubens Ribeiro (59) e Pedro da Silva de Matos (62) se recuperam dos ataques intermináveis da doença. Eis os seus relatos:

Estou há 15 dias acometido da Covid-19, com febre, dor no corpo e todos os outros sintomas que pode apresentar. Não sei como fui infectado. Começou como uma dor de garganta e febre e uns dias depois procurei ajuda na Unidade Sentinela. Fiz o teste e deu positivo. Comecei a tomar todo o coquetel que precisava. O coquetel se mostrou fraco pra mim. Mesmo com três dias após tomá-lo, precisei procurar ajuda no Pronto Socorro e cheguei em uma situação bem debilitada aqui. É uma doença que não leva, como dizem no Rio Grande do Sul, ninguém para compadre. Mesmo com todos os remédios, fazendo um tratamento forte, ainda tenho comprometimento nos meus pulmões e já estou internado há cerca de uma semana. Mas, graças a Deus, meu quadro clínico está melhorando. Já consegui tirar o oxigênio e só estou à espera de poder voltar para casa” – Régis Fiorio, que ficou internado entre o dia 10 de junho a 19 de junho.

Eu peguei esse Covid-19 sem saber o que era isso. A gente facilitou demais também. Achava que só acontece para os outros. E infelizmente eu estou aqui hoje. Eu queria dar uma palavra para os meus amigos, os familiares: isso não é brincadeira. Passei mal, mas pela glória de Deus hoje estou aqui.” – Rubens Ribeiro, deu entrada no hospital no dia 11 de junho e foi liberado dia 19.

Eu peguei essa doença há nove dias, mas graças a Deus estou me recuperando bem. É braba essa doença, muito braba. Deu muita dor, sofri bastante, mas graças a Deus e a equipe estou me recuperando bem. Eu achei que a coisa ia ficar feia. Mas não é brincadeira, eu também pensava que não era. Muitas vezes andava sem máscara na rua, pensava que a coisa era fácil. Eu mesmo cansei de dizer que era uma gripe. Isso não é uma gripe nada, ataca tudo na gente. Eu passei mal” – Pedro da Silva de Matos, internado no dia 13 de junho e saiu no dia 16.

Quando o combate fica mais intenso

Se o soldado (ou melhor, o paciente) não melhora na enfermaria, ele precisa avançar para a batalha mais difícil da linha de frente: a Unidade de Tratamento Intensivo.

É preciso coragem para adentrar o espaço ocupado pela UTI. Ao abrir a porta, você se depara com uma divisória no fim do corredor onde há uma placa com um aviso:


Entrada proibida

Perigo

Risco Biológico

Coordenada pelo médico Juliano Loblein, o general da tropa na unidade, a UTI completa três meses com excelentes resultados e um percentual pequeno de vidas perdidas.

Cada paciente é monitorado por diversos aparelhos

Para isso, os profissionais, escolhidos a dedo para formar a tropa de elite da casa de saúde, precisam fazer uso de armamentos pesados no combate à Covid-19 para evitar a perda de um combatente. Aqui, um erro pode custar uma vida.

A recuperação, no entanto, coloca em cheque a resistência dos pacientes com os tratamentos penosos, porém necessários. E cada um dos doentes é rodeado por diversos aparelhos e tubos para salvá-los.

O curativo mais angustiante é a intubação, a principal arma da unidade. Entretanto, usá-la não vem sem um preço. Em média, o paciente costuma ficar cerca de 15 dias intubado. Neste período, ele fica sedado até voltar a respirar por conta própria. 

Se o paciente passar de duas semanas, a situação pode piorar. 

O tubo, quando muito tempo na traqueia e cordas vocais, pode causar lesão que pode evoluir para uma fibrose e fazer com que a traqueia diminua, dificultando no futuro a respiração”, explica o médico.

Profissionais verificam situação de paciente que passou por traqueostomia.

Nestes casos, que não são raros, resta uma saída, nada agradável: a traqueostomia, um procedimento cirúrgico na altura do pescoço para que a pessoa prossiga com o tratamento. Apesar de parecer alarmante, o método é seguro e evita possíveis sequelas.

Outra estratégia (técnica) é colocar o paciente de bruços, um procedimento comum entre os pacientes de Covid-19 que necessitam de respirador.

Por questão de anatomia, a maior parte do pulmão fica projetado para a parte posterior do corpo. E quando o pulmão está doente, a gente coloca o paciente de bruços, em posição de pronação, com o intuito de liberar a maior parte e não ter o peso corpóreo achatando o pulmão para conseguir ventilar melhor.

No dia em que a reportagem esteve na UTI, quatro pacientes estavam internados. Todos eram homens, com idade entre 37 a 54, revelando um cenário ainda mais preocupante.

Aquelas faixas etárias que foram vacinadas não estão mais internando. Quando ocorrem, são casos mais leves. Então, percebemos que caiu bastante a média da faixa etária de pacientes em tratamento nas enfermarias e, principalmente, na UTI. Pacientes novos, sem nenhuma doença, que não fazem parte do grupo de risco que era anteriormente divulgado. Hoje, se sabe que esse grupo de risco não existe. Qualquer pessoa pode desenvolver a doença de forma grave, independente de ter uma saúde boa ou não”, alerta Juliano.

Sofrimento

Daniel Prestes Antunes (54), era o paciente mais velho internado na unidade no dia 16 de junho. Consciente, porém ainda debilitado, já estava na fase final de recuperação. Ele deu entrada no hospital duas semanas antes e sairia no dia 20.

Após dias difíceis na UTI, Daniel entra na fase final da recuperação

No começo, eu não levei muito a sério. Não me esforçava muito. Quando internei, comecei a ver que a coisa era crítica. Acabei subindo para a UTI, fui “botado” na máquina, sofri bastante, mas a equipe sempre me apoiando. Falavam pra eu continuar, não desistir, porque caso contrário eu iria ser intubado. E daí, devagar, fui me esforçando. Para ir ao banheiro, era só na cadeira, não conseguia nem escovar os dentes. Mas, com o apoio de todo mundo, tu consegue dar a volta por cima. Mas que é sofrido é.”

Além da dor física, a Covid-19 provoca danos psicológicos nos soldados que lutam pela sobrevivência, ainda mais por estar distante da família.

Eu oro toda a noite. Tem dias que eu começo a chorar. Bate a depressão. Fica difícil, mas temos que assumir esse risco”, desabafa Daniel, com a voz já embargada. 

Peço para que o pessoal que está lá fora não relaxar. Porque essa briga é constante, o cara não pode desistir. Porque vindo pra cá é difícil voltar pra casa. Quem tem família, se cuide e se prepare, porque é complicado.

Alerta

Aqueles que lutaram e que ainda lutam carregam em seus corpos e em suas almas as sequelas do combate contra a Covid-19. E que para mais pessoas não venham parar na linha de frente, profissionais de saúde e pacientes fazem um apelo à comunidade:

Quando dá a falsa sensação de melhora da pandemia, ou uma falsa sensação de segurança que as coisas vão ficar bem, as pessoas precisam enxergar o outro lado, dos pacientes graves, muitos perdendo a vida, famílias sendo totalmente dilaceradas pela doença e nós, profissionais da saúde, cansados, porque não temos a quem recorrer para substituir e ficando doentes pela pandemia, chegando daqui a pouco a um risco de não ter pessoas suficientes para tratar quem está doente.” – médico Juliano Loblein, coordenador da UTI.

Deus me deu uma segunda chance para avisar o povo, meus amigos e parentes que se cuidem. Às vezes as pessoas facilitam demais, acham que isso é uma brincadeira. Não é brincadeira não. Veio para matar mesmo.” – Rubens Ribeiro, paciente da enfermaria.

Minha mensagem é que tentem se cuidar para evitar que o próximo seja um de vocês que esteja aqui. Se tiver, a gente vai cuidar o máximo possível. A gente sabe que as pessoas não procuram ficar doentes, mas evitem coisas desnecessárias, aglomerações. Tenho visto jogos de futebol no final de semana e jogadores de futebol têm vindo no Pronto Socorro. Não é o momento para isso. A gente não julga quem pegou. O vírus está aí e o contágio está muito mais forte.” – médica Fernanda Desbessel.

Não há outra palavra a ser usada nessa hora a não ser a negligência, todo mundo acha que não vai pegar ou que isso não existe. A pandemia existe, é real, e eu não queria que vocês vissem o que a gente está vendo. Temos que nos conscientizar. Fiquem em suas casas, evitem aglomerações porque depois o choro é grande, infelizmente. Temos visto quadros graves, perdas de pessoas, perda de mães, perda de pais e são situações nenhum pouco agradáveis para nenhuma família.” – médico Marco Lieberknecht.

Peço para que o povo e os meus amigos que se cuidem. Se cair aqui, a gente não sabe como vai sair, se sai por uma porta ou por outra.” – Pedro da Silva de Matos, paciente da enfermaria.

A gente fica muito feliz quando o paciente consegue ter uma melhora e vai pra casa. Como é uma doença que demanda tanta internação e tem evolução das mais variáveis possíveis, com índice de complicações enormes, quando a gente consegue mandar o paciente pra casa, que ficou longe da família por vários dias, a maior parte das vezes, a gente fica muito feliz. Quando recebem alta, muitos choram e tentam abraçar. Assim como a gente fica muito triste quando aqueles pacientes que não conseguem. E o que a gente vê que os que não estão conseguindo são os mais jovens. Toda a equipe fica triste com cada perda. Mas o pessoal tem sentido mais porque temos cada vez mais gente jovem acabando partindo por causa do Covid-19. E a gente sabe que são pessoas que teriam toda uma vida pela frente, pacientes que tinham se casado recentemente. São coisas que mexem com todo mundo.” – médico Luís Ernesto Vargas.

Não estou aqui para julgar ninguém nem dar conselhos para alguém. Somos todos adultos, gente, sabemos o que é certo e o que é errado. Eu mesmo, todos nós, a gente não se mantém totalmente vigilante. Esse é o problema. Só depois que se cai no hospital e acontece algo com a nossa família é que damos a devida importância à doença. Enquanto é na família dos outros, enquanto estamos vendo matéria na imprensa e nas redes sociais que está morrendo gente, mas são apenas conhecidos ou pessoas que a gente nem conhece, passa batido. E a gente segue com a nossa vida normal, segue muitas vezes não se cuidando e fazendo aglomerações. Espero que as pessoas vejam como estou hoje para tentar se conscientizar.” – Régis Fiorio, paciente da enfermaria.