UTI de Panambi completa um mês com 27 pacientes atendidos

0
70

Dar um tratamento mais digno aos pacientes com Covid-19. Este propósito foi o que motivou os médicos do Hospital de Panambi a abrir caminho para a criação de uma unidade para atender as pessoas em estado grave.

No momento em que o sistema de saúde enfrentava o maior colapso desde o início da pandemia, com lotação máxima nos leitos de UTI, a equipe médica uniu forças com a prefeitura – por meio da Secretaria da Saúde – para viabilizar uma unidade no município.

A mobilização deu certo e, em três dias, a ideia saiu do papel e tornou-se realidade.

Assim, no dia 17 de março, a Unidade Intermediária de Cuidados Intensivos (ou UTI Semi-Intensiva) recebeu os primeiros pacientes.

Em questão de dias, os cincos leitos da ala, instalada no Centro Obstétrico, estariam cheios. No pior momento da pandemia, chegou a ficar sobrecarregado e depois manteria uma média diária de quatro pacientes internados.

Ainda no início de abril, o novo “campo de batalha” (como seria chamado por alguns médicos) deixaria de ser intermediária para se tornar uma Unidade de Tratamento Intensivo após parecer favorável da Vigilância Sanitária Estadual.

Um mês após o início das atividades, a UTI municipal já atendeu 27 pacientes. Destes, três receberam alta, quinze foram transferidos para hospitais de maior complexidade – saindo de Panambi com estado de saúde estável e com chance de cura – e cinco permanecem em tratamento.

A faixa etária na unidade varia de 30 a 60. Com a vacinação, o número de idosos com mais de 70 reduziu nos últimos dias.

Responsável por coordenar a unidade, o médico Juliano Loblein relata como é atuar na UTI.

“É um trabalho desgastante, porque é 24h por dia e são pacientes que requerem cuidados a todo momento, porque em poucos minutos ou horas muda muito o quadro clínico. Por ser uma doença grave, a gente tenta fazer o possível pelo paciente, mas a gente não sabe quem vai evoluir de forma satisfatória e quem vai pra óbito.”

Taxa de mortalidade

Até terça-feira (20), quatro pacientes haviam falecido na ala. Com isso, a taxa de mortalidade é de 14,8%, bem abaixo dos 66,3% da média nacional, conforme os dados da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib). Ou seja, no Brasil, dois a cada três pacientes internados em UTI, dois morrem em função da doença.

“É uma taxa de mortalidade extremamente alta. Porque realmente é uma doença muito grave e imprevisível, que a gente não sabe como vai se comportar”, explica o médico Juliano Loblein, um dos responsáveis pela unidade no Hospital de Panambi. “Mesmo nos maiores hospitais do país, referência na América Latina, a mortalidade é extremamente alta. E não tem como ser diferente em hospitais menores.”

Devido a isso, a transferência para uma UTI deixa de ser uma garantia de que o paciente com Covid-19 vai se recuperar.

“Nós não temos garantia nenhuma que o paciente que vai para a UTI vai ficar vivo. Pelas estatísticas, o paciente que vai para a UTI, por estar extremamente grave. A chance maior é que ele não resista pela doença ser muito grave.”

Por isso, o médico volta a fazer um apelo para a comunidade manter as medidas de prevenção. “A alta taxa de mortalidade deveria resultar no maior cuidado da população. Porque a melhor atitude é não pegar a doença. Se a pessoa ficar doente, nós não temos como prever de que forma vai evoluir a doença”, explica Juliano.

A maioria dos óbitos ocorreram durante ou depois da transferência do paciente para UTI de outro município. O doutor explica que isso se deve às dificuldades de manter a pessoa estabilizada durante a viagem e, principalmente, pela doença ser muito grave.

“Às vezes, devido ao transporte ter toda a estrutura de uma UTI, isso pode fazer mal para um paciente. Mas, não podemos tirar a chance de ir para um hospital de maior complexidade, principalmente por não termos ainda a hemodiálise.”

E, embora a equipe celebre cada alta, toda a perda é sentida. “Perder um paciente sempre é muito ruim. Porque a gente luta, dá o máximo de si, se esforça para manter uma pessoa viva e a gente fica triste mesmo não conhecendo a pessoa.”

Longa permanência

Além da alta taxa de mortalidade, outro desafio na UTI é a longa permanência dos pacientes. A maioria costuma ficar mais de uma semana. Um ficou 19 dias, algo comum principalmente entre as pessoas que estão intubadas.

“A maioria dos pacientes de Covid-19 possuem Síndrome de Angustia Respiratória do Adulto (Sara) e cursam com internações na UTI de longa permanência. Não é um quadro de resolução rápida, é extremamente arrastado. O paciente, depois de intubado, é difícil tirar o tubo antes de 15 dias.”

Escassez de medicamentos

Por ter iniciado os trabalhos no auge do pico de março, agravado com o colapso da saúde, a unidade de Panambi precisou lidar com a frequente escassez de medicamentos do chamado “kit intubação”, necessário para manter o paciente intubado.

No pior momento de março, o Hospital de Panambi entrou em alerta máximo e informou que havia estoque para apenas três dias. Porém, nos dias seguintes, conseguiu reverter com a compra de mais medicamentos.

O problema, registrado em todo o país, persiste. “Estamos conseguindo se manter, conseguindo compra de poucas por semana. Mas, ainda existe a escassez, tanto é que as cirurgias que não são de urgência não estão sendo feitas”, reforça Juliano.

Balanço

“Atingimos o nosso objetivo”, avalia o secretário da saúde, Romário Heitor Malheiros. “Buscávamos salvar vidas e dar uma condição mais digna aos pacientes para quando há necessidade de transferir para um leito completo de UTI da região numa condição estabilizada.”

O secretário reforça o trabalho em harmonia entre a equipe da casa de saúde e o município, que cedeu seis profissionais entre técnicos de enfermagem e enfermeiras para a unidade. “Temos que trabalhar juntos para atender a comunidade panambiense.”

Em entrevista à SB Comunicações, o prefeito Daniel Hinnah ressalta que o município tem bancado com recursos municipais os profissionais médicos, que recebem por hora de trabalho (24 horas por dia). Ele também afirmou que a prefeitura trabalha para a UTI permanecer, com a viabilização de outros equipamentos, incluindo hemodiálise.

“Abrimos a UTI emergencialmente para tratamento de pacientes Covid-19 sem ter hemodiálise em Panambi. Mas isso demonstrou a importância desse serviço de saúde de alta complexidade e estamos trabalhando para também ter os equipamentos.”